
“Eu agi sempre para dentro
Eu nunca toquei na vida.
Nunca soube como se amava...
Apenas soube como se sonhava amar.
Se eu gostava de usar anéis de dama nos meus dedos,
É que às vezes eu queria julgar que as minhas mãos eram de princesa.
Gostava de ver a minha face refletida,
Porque podia sonhar que era a face de outra criatura.”
(Desassossego – Fernando Pessoa)
Sou mesmo muito tola. Fico aqui me revirando na cama, imaginando tantas coisas que tenho certeza de que nunca deixarão de ser só isso: pura imaginação. Chego a ter vergonha de mim por ser tão estúpida. Sou esse animal sentimental, que volta e meia se pega chorando por nada, ou que cai de amores por tão pouco. Sou mesmo muito tola. Há tempos que não venho tendo sossego. Não tenho mais aquela calma companheira – que poucos enxergavam - , nem aquelas manias que me divertiam. Não tenho mais aquele ponto de apoio, nem o foco nas coisas que me davam alegria. Não sei dizer o que se passa aqui dentro, não sei dizer o que queres que eu diga, simplesmente não sei. Tenho perdido minha voz, contento-me em apenas observar, ser sempre quem está por trás das cenas, quem apenas assiste o que se passa. Não é tão triste assim como muitos pensam, só que é complicado quando você passa a observar demais e participar de menos. Você meio que perde um pouco do contato com os principais atores, e isso é ruim. Há quem consiga viver bem sem eles, há quem não consiga. Mas também há quem quer estar no meio de toda essa confusão. Que não quer estar apenas de um lado ou apenas de outro. Há quem queira acompanhar o que se passa pelos dois lados, mas ninguém quer saber disso. Não entendem muito o que se passa com um ser tão observador. Mas ainda observo. Não sei ser diferente. Sou mesmo muito tola. Tenho observado tanto, que tenho perdido a pratica nas relações sociais. Já vi os reflexos de tantas pausas para observar, já senti o cansaço me tirar o senso do que é real e o que não é. Ainda fico me revirando pela cama, imaginando aquela cena no balanço, imaginando aquele abraço de conforto, imaginando aquele beijo que não vai acontecer. Estou imaginando demais. Preciso do meu sossego de volta. Preciso encontrar meu ponto de equilíbrio. Sinto que estou sendo mais tola ainda, escrevendo tudo isso. Por que não deixei isso apenas na imaginação?
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